O ex-autarca culto e gay que corre contra veteranos

Pete Buttigieg
Foto: KATHERINE TAYLOR/EPA

O mais jovem pretendente à Presidência dos Estados Unidos, Pete Buttigieg, passou por escassíssima margem o controverso teste do pequeno estado do Iowa para a escolha do candidato que o Partido Democrata vai apresentar às eleições de novembro. Independentemente dos resultados, terá tornado irreversível a ascensão de uma estrela. Terão os seniores razões para a recear?

É notório que o ex-presidente da Câmara de South Bend – portanto sem qualquer experiência em postos nacionais, como lhe aponta, como ponto fraco, o até agora favorito nacional, o senador Joe Biden, 77 anos – disputa a um tempo o campo conservador do ex-vice-presidente e o progressista do senador Bernie Sanders (78) e mesmo da também senadora Elizabeth Warren (70), outra favorita. E disputa-os no plano das propostas, como a reforma política, que inclui a eleição direta e universal do presidente, um sistema de saúde universal e a defesa dos direitos dos homossexuais, e, dizem, pelo brilhantismo da retórica.

De católico a anglicano

Assume-se publicamente homossexual (é casado com um professor que conheceu num sítio de encontros) e apresenta-se como cristão (inclui citações bíblicas nos discursos) e defensor dos valores americanos.

De formação católica (estudou em colégios desta confissão), teve como modelo o bispo progressista salvadorenho Oscar Romero (assassinado às ordens da ditadura em 1980). Tornou-se anglicano porque a mais progressista e aberta que encontrou nos EUA foi a Igreja Episcopal – foi esta a nomear o primeiro bispo “gay”, em 2003.

A generalidade dos perfis na imprensa converge em que Buttigieg é um homem inteligente e culto. Graduado em Harvard em História e Literatura, formou-se em Filosofia, Política e Economia em Oxford e fala cinco idiomas além do inglês – francês, espanhol, italiano, maltês e árabe, “arranhando” o dari (persa do Afeganistão) e o dinamarquês.

Trabalhou numa consultora internacional em Chicago e foi voluntário na Marinha, onde foi especialista em “intelligence”. Era tenente na reserva quando, em 2014, foi servir sete meses no Afeganistão, suspendendo o mandato de autarca.

Tinha 29 anos quando regressou à cidade natal com a promessa de fazê-la renascer do declínio industrial, reerguer a glória das ruínas de fábricas como a Studebaker (automóveis), encerrada em 1966, combater o desemprego (recuou para 3,7%) e dar prioridade à reabilitação urbana (o sítio oficial da sua campanha fala na atração de 400 milhões de dólares e diz-se que um condomínio de luxo foi o primeiro inaugurado em 50 anos).

Os apoiantes locais elogiam-lhe os feitos. Mas há detratores e problemas por resolver, como a falta de atenção aos subúrbios, onde há queixas de privilegiar o centro, e as tensões raciais (40% da população local é negra) e o comportamento da polícia.

O assassínio a tiro de um homem negro por um polícia, no início de junho, era Buttigieg ainda presidente da Câmara, obrigou-o a interromper a campanha para tentar apaziguar os ânimos, enfrentar manifestações e ter de olhar nos olhos a família da vítima. Uma reportagem da CNN em janeiro mostra que há ressentimentos vivos, mas os próximos dizem que o candidato aprendeu muito com o caso – até para ser presidente dos EUA.

Em plena discussão sobre violência racista, no verão, a BBC levantou o que pensam os candidatos. De Pete Buttigieg disse: “Culpa a ideologia do nacionalismo branco “tolerado nos níveis mais altos do nosso Governo””.

Fonte: JN

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Francisco Lacerda

Francisco Lacerda

Francisco Lacerda nasceu em Lisboa, Portugal. É um critico de cultura Queer e editor de cultura do Pois. Especialista em luxo e arte, trabalha para o Pois desde 2018

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