Queer Lisboa 23: Crítica

Queer Lisboa apresentou uma 23ª edição com um conjunto de filmes e variadas actividades paralelas, desde conferências, festas e exposições. O Queer Lisboa mostrou no geral filmes que visam celebrar os 50 anos dos Motins de Stonewall bem como os 20 anos da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, passando pelos 40 anos da Secção Panorama da Berlinale. A secção de Queer Pop contou com os documentários de Conan, O Rapaz do Futuro e Lena d’Água – Nunca Me Fui Embora. O filme vencedor do festival foi Sócrates.

Abertura

Nas actividades paralelas foi de salutar os diferentes Debates e Conversas sobre novos Populismos e o debate Direito a Ser… Intersexo. Por fim, houve também oportunidade para uma Conversa com Wieland Speck, no Goethe-Institut sobre secção Panorama da Berlinale .

Wieland Speck, Nuno Galopim e João Ferreira

A sessão inaugural da secção Panorama no dia 21, contou com a exibição, SELF-PORTRAIT IN 23 ROUNDS: A CHAPTER IN DAVID WOJNAROWICZ’S LIFE, 1989-91, de Marion Scemama, François Pain, e a presença dos realizadores.

Abertura com a presença da Ministra da Cultura e da Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa

Os filmes que devia voltar a ver:

Self-Portrait in 23 Rounds: A Chapter in David Wojnarowicz’s Life, 1989-1991 (2018)

Um filme sobre a vida e obra de David Wojnarowicz (1954-1992), onde é feita uma entrevista realizada em 1989 por Sylvère Lotringer. Wojnarowicz fala sobre a sua primeira experiência sexual aos 8 anos com um homem adulto, sobre a doença da SIDA, a morte do seu amor e a confiança que tem nos animais ao invés das pessoas. Marion Scemama era amiga de Wojnarowicz e filmou a entrevista. O filme não tem grande qualidade cinematográfica, mas é uma excelente forma de o público ficara conhecer mais sobre o artista. O nome do filme é dedicado à memória de Félix Guattari.

And then we danced

É sem dúvida um filme diferente. Na Geórgia o tema Gay é ainda muito pouco falado e escondido pela sociedade. Por esse mesmo motivo é de aplaudir a realização deste filme.

Realizado por Levan Akin, conta com a participação de atores com tanta qualidade como os do Ocidente. É verdadeiramente surpreendente! Trata-se de um filme sobre a história de amor/ódio entre dois rapazes bailarinos Merab (Levan Gelbakhiani) e Irakli (Bachi Valishvili). Um filme que mostra o lado positivo e negativo da vida Queer na Geórgia. O filme peca por não ser sexualmente mais explicito ou diferente. Também deveria conter mais ação e outros desenvolvimentos. Estamos a meio do filme e ainda nada se passou….

Split

Um documentário sobre a transgénero Internacionalmente famosa conhecida por International Chrysis (1951 – 1990) . Sendo amiga íntima de Andy Warhol e Salvador Dalí, animava muitos clubes noturnos dos anos 80 em Nova Iorque por ser considerada uma Diva. A sua obsessão pela beleza, prazer e perfeição levou-a à morte. Embora seja um documentário antigo, este filme é bastante bom e muito atual.

The attendant

Esta é uma curta-metragem do artista Isaac Julien. Isaac é considerado um dos mais importantes artistas Queer da sua geração, com trabalhos que vão desde o cinema, video art, video instalação e fotografia.

Esta curta é uma espécie de fantasia erótica “gay inter-racial“. Um filme que explora o tempo e o espaço. O espectador é envolvido numa história erótica que mistura arte, prazer e o pecado. Uma história “gay interracial”, entre um adolescente gay “branco” que vai ao museu e tem um encontro erótico com o segurança “negro”. Um encontro “Kinky” inspirado na obra de arte do século XIX – O Comércio de Escravos – do artista francês François-Auguste Biard, ou seja, uma obra de arte viva que se se transforma numa cena de sadomasoquismo “Leather”. Algumas obras na parede do museu nesta fantasia são do artista Tom of Finland. Sem dúvida uma curta a não perder!

Daddy and the Muscle Academy

No final dos anos 1940, o artista Tom of Finland ou Touko Vasko Laaksonen (1920-91) começou a desenhar as suas fantasias e realidades sexuais do pós Segunda Guerra Mundial no papel. A influência das fardas e a autoridade excitavam-no, sendo por isso fácil de ver militares fardados de nazis em muitos dos seus desenhos. Tom é um artista ilustrador que explora o desenho e pintura numa forma exagerada, e quase cómica. É como se estivéssemos a ver uma banda desenhada, tal como as obras de Roy Lichtenstein, Jasper Johns, Keith Haring ou Andy Warhol. De facto Tom conheceu alguns destes artistas. Sem dúvida que Tom inspirou muitos Gays nos anos 70, 80 e 90, onde até hoje na cultura Gay, existe a chamada cultura “Leather”. Eagle Open Kitchen, foi um bar que nas revoltas de Stonewall em 1969 se tornou uma referência da cultura “Leather”. As Leather Party´s de Berlim, São Francisco e Amsterdão têm uma grande influência de Tom of Finland. É evidente, através deste documentário, que o artista se tornou muito comercial no fim da sua carreira e com um olho virado para o mercado dos EUA. Este documentário não atinge a qualidade suficiente de muitos outros documentários Queer. Vale a pena ver só pela história e qualidade das obras do artista.

100 days before the command

Um bom filme para voltar a ver do realizador Hussein Erkenov , sobre um conjunto de rapazes na Bielorrusia durante a URSS. Os adolescentes vivem num quartel militar onde a exigência física e psicológica é enorme. Um filme sobre o bullying, homossexualidade, desejo sexual e repressão.

A forma de como o filme está feito é um excelente exemplo de como é possível criar um filme que está dentro do tema Gay sem que existam cenas de sexo, amor ou até mesmo beijos entre as personagens. É sobretudo um filme que avalia o olhar e a mente do ser humano perante o esgotamento. Muitas das cenas são filmadas com rapazes musculados e de boa compleição física, nus com pénis à vista a tomarem banho, a vestirem-se e até a lavaram-se ou massajarem-se uns aos outros, numa intimidade pouco clara. Esta é a idade da descoberta e das experiências sexuais. Nesta altura era muito provável que muitas das relações sexuais nos quartéis e/ou até mesmo violações entre superiores e inferiores hierárquicos fossem frequentes às escondidas.

Não estamos perante um filme sobre uma história de amor, mas sim um drama sem uma história. Aliás, o filme mostra um forte retenção dos sentimentos. Um militar não pode mostrar sinais de fraqueza ou falta de masculinidade. Um filme que questiona a guerra, o que significa ser “Homem” e todo o negócio das armas. É difícil entender se é um filme que é baseado factos reais.

The Spark: the Origins of Pride

Não considero um bom filme documentário. Mais parece um programa de TV “cor-de-rosa” sobre a história LGBTQ+. No entanto, é um filme que consegue fazer um apanhado de alguns momentos importantes da história LGBTQ+ com importantes figuras políticas e sociais. Realizado por Benoît Masocco, este filme consiste numa série de entrevistas sobre os primeiros fundadores da luta pela liberdade e emancipação LGBTQ+ em França, EUA entre outros países.

Este documentário é sobre a criminalização da homossexualidade, a luta pela descriminalização, Mattachine Society, Stonewall Riots, Gay Activists Alliance, Radicalesbians, Street Transvestites Action Revolutionaries, Christopher Street Liberation Day, a primeira Pride, Harvey Milk, Gilbert Baker, etc.

Podia ser um documentário mais completo.

Carmen y Lola

Um filme extraordinário sobre a história de amor entre duas jovens ciganas em Espanha, que querem iniciar uma relação sexual. Carmen é uma cigana, que como muitas outras, vive a cultura cigana de forma intensa: casar e criar tantos filhos o mais breve possível. Lola que também vive na mesma comunidade, quer estudar e tem outros objetivos de vida. Um dia apaixona-se por Carmen, e ai começa uma relação de amizade. Carmen pede o divórcio, e causa uma enorme revolução no seio da comunidade. Lola, por sua vez é apanhada a beijar Carmen.

Este filme mostra a influência da religião na vida das pessoas. A rejeição que existe entre os chamados “brancos” e os ciganos. A rejeição dos ciganos para com a comunidade LGBTQ+. Mas este filme tem um final feliz! O casal lésbico foge para viver o seu amor.

Lena d’Água – Nunca Me Fui Embora

Um documentário sobre Lena d’Água, uma diva Queer portuguesa que começou a cantar nos 70. Mais tarde nos anos 80 é considerada uma das vozes com mais sucesso da música “pop” portuguesa.

Letters to Paul Morrissey

Paul Morrissey, cineasta colaborador da The Factory de Andy Warhol, e ainda vivo, apresenta neste filme 3 personagens que mostram os seus sentimentos de forma muito pessoal através de cartas.

A The Factory era conhecida por produzir filmes que continham precisamente nudez, sexo explícito, drogas, relações homossexuais e trans. O filme está muito bem realizado, e é considerado cinema de cultura “underground” de forma quase “avantgarde” ou experimental.Nada comercial. Vale a pena assistir.

Sócrates

Efetivamente é a história de um adolescente de 15 anos, de cor, cuja mãe morre repentinamente, com grande desgosto dele, ficando só no mundo. Tem um pai, que ele detesta, pois, sempre foi agressivo e violento(quantos rapazes, sofreram as consequências traumáticas de terem tido tal Pai(?). Vive na cercania de São Paulo, num isolamento, devido à sua sexualidade.

Na sua luta pela sobrevivência, encontra alguém, por quem se apaixona. No entanto, esse jovem de cerca de 20 anos, tem dificuldades de se assumir, dai resultado, violência e rejeição.

Realizado por Sandra Moratto e sendo a sua 1ª Longa-metragem, com a duração de 71 minutos, trabalhou com Instito Querô sendo Produtor Fernando Meirelles,

O Instituto Querô usa o audiovisual, na inclusão de jovens em risco e a realizadora escolheu o Ator Christian Malheiros, que foi recentemente formado, para o papel de Sócrates. Continuando na busca de comida e abrigo, tenta a prostituição, mas perante um caso, rejeita essa via.

Aproximando-se de um documentário, vai fixar-se numa longa-metragem, devido também, à câmera/fotografia de João Gabriel de Queiroz.

Premiado com o 1º prémio de Competição de Longa-Metragens, do Queer Lisboa 23 .

Ching Shao Nien Na Cha

Realizado por Tsai Ming Liang, já conta com mais de 10 filmes realizados. Este filme terá sido a sua primeira Longas-Metragens. O crítico Frédéric Bonnaud escreveu (Inrockuptibles 144):”Tsai é um cineasta abertamente sistemático, que é o que faz, a sua força e simultaneamente o seu limite ”e” histórias baseadas em tempos mortos.mais do que tempos cheios”.
No filme Rebeldes, aparecem quartos inundados, chuva, agua a infiltrar-se por um ralo, em que uma mão, tenta tapar, enfim pleno de simbologias, também baratas rastejantes, em que um estilete, perfura uma delas (em grande plano).
Não existem conclusões nem juízos de valor, somente a observação, as personagens em busca de algo, o amor(?), um mundo algo vazio, passeando-se pelas ruas de Taipé, símbolo noturno, solidão e no último plano do filme, a câmera vira-se para o céu.
Sendo Tsai, grande admirador de Serge Truffaut e do filme “400 Golpes”, vai usando a mesma personagem que vai envelhecendo, o Actor Lee Kang Sheng (à maneira de Truffaut ?), O Filme é falado em chinês.

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Francisco Lacerda

Francisco Lacerda

Francisco Lacerda é um artista, curador de arte internacional e editor de cultura do Pois. Trabalha para o Pois desde 2018. Já estudou e trabalha em arte, gestão, mercado de arte e gemologia. Francisco Lacerda já realizou entrevistas em representação do Pois, a artistas como: Duane Michals, Edouard Taufenbach, Anthony Lister, Manuel Braun.

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