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“QUEER ARTE PORTUGUESA” João Gabriel um artista Queer emergente

Entrevista por Francisco Lacerda

 

JOÃO GABRIEL, Untitled, 2018 Acrylic on paper 100 x 65 cm © Bruno Lopes

 

Lisboa, Portugal

Durante o mês de Setembro 2018

João Gabriel tem 26 anos, é um artista plástico gay assumido, vive e estudou nas Caldas da Rainha, e faz parte da geração de jovens artistas Portugueses que estão a descobrir um Portugal diferente do que existia há décadas atrás. Um Portugal que permite que os artistas possam se expressar de forma livre a sua sexualidade Queer seja na: tela, em vídeo, artes performativas, cinema, dança ou teatro.  O João Gabriel é um artista que tem interesse por filmes eróticos que por sua vez transmite na tela cenas que lhe despertaram mais a atenção. Muitas destas cenas, acabam por ser cenas de filmes que se relacionam com a sua vida sexual ou pessoal, que se revelam serem um passado que expõe a sua experiência de vida enquanto gay.

 

FL- Podemos definir a tua arte como Erótica?

Eu gosto de pensar que toda a pintura é erótica, até quando não há representação humana.

FL – Em muitas obras tuas, é possível dizer que e sente uma sensação de desgosto, frustração ou apatia? É no teu entender que seja difícil uma relação amorosa entre dois jovens gays em Portugal? A sociedade portuguesa, sendo maioritariamente católica, está preparada para aceitar esta forma de relação amorosa?

Existe, infelizmente, ainda muita homofobia no meio em que vivemos, e é muito doloroso crescer nesse meio. Talvez essa vivência passe hoje para as pinturas, é uma leitura possível. Contudo, acho que esse carácter melancólico se deva a outras questões, que têm antes a ver com o meu próprio carácter e com aquilo que me interessa explorar na pintura.

JOÃO GABRIEL, Untitled, 2018 Acrylic on paper 100 x 65 cm, cortesia da Galeria Lehmann+Silva

 

FL – Se remontarmos aos anos 80 no EUA, mesmo com a Beat Generation, começou a haver um despertar na arte por parte do público Nova Iorquino para o nu masculino, como nunca antes visto. Quando a cidade de Cincinnati se recusou a expor a obra de Robert Mapplethorpe, ele se tornou ainda mais conhecido. É para ti uma referência importante no o teu trabalho Robert Mapplethorpe? Em Portugal, não começa a haver um interesse maior pelo nu masculino, pornografia gay ou o tema Queer? É necessário que se continue a defender a liberdade de expressão artística?

É sempre importante defender a liberdade artística, o caso de Serralves é prova disso. É inaceitável que se proíba acesso a determinadas obras a uma determinada faixa etária, isso só mostra que ainda existem preconceitos contra os quais temos de lutar.

FL – E Henry Scott Tuke ou Keith Vaughan? Algumas obras fazem relembrar estes artistas.

Gosto muito do Henry Scott Tuke, e há pinturas minhas que têm muito a ver o com o seu trabalho. No entanto, as maiores referências para mim têm sido outros como Bonnard e Matisse

JOÃO GABRIEL, Untitled, 2018 Acrylic on paper 100 x 65 cm © Bruno Lopes

 

FL  Será que existe uma tendência para o Voyeurismo em todo o teu trabalho? Que reação, se é que desejas, no espetador, quando se depara com uma obra tua?

Sim, há muitas vezes um olhar observador, o meu e o do espetador. Mas não faço as coisas para obter reações específicas por parte de quem vê e tão pouco quero limitar a interpretação que se possa ter acerca das pinturas. No fundo, fico apenas feliz quando alguém se relaciona com o meu trabalho.

FL – Porquê os filmes, e não livros, fotografia, pintura como referência para elaboração das tuas obras? Quais os filmes que te inspiram nas obras?

Simplesmente porque esse material se adequa às minhas necessidades. Não gosto de trabalhar com fotografias porque me oferecem poucas possibilidades, as posições, as poses acabam por ser sempre muito semelhantes. então encontrei, nos filmes pornográficos, esta vantagem de poder explorar frame a frame e, assim, encontrar imagens que me fazem querer pintar. E depois, o meu trabalho exige sempre que tenha um ponto de partida assente numa imagem. Gosto sobretudo de filmes pornográficos dos anos 70/80, feitos antes de surgir o HIV, há neles uma exaltação à liberdade dos corpos que me agrada muito.

FL – De que forma podemos relacionar a atracão de artistas como Miguel Ângelo, Dürer ou Leonardo Da Vinci pelo corpo do homem, muitas vezes novo, com a forma como tu expões o teu trabalho sobre homens nus?

O corpo é um velho tema da pintura, não estou a fazer nada de novo. Acredito que essa herança está sempre presente e se manifesta, muitas vezes de forma inconsciente, até na própria composição das pinturas.

FL – Existe algum escritor ou movimento literário que te inspire na realização das tuas obras? Que livros lês de momento?

Não, a literatura nunca foi algo que quisesse ou pudesse usar no meu trabalho. Claro que as coisas que leio acabam por ter impacto no que estou a fazer, e há um lado narrativo no meu trabalho que vem seguramente daí, mas não de forma intencional. Agora estou a ler Kawabata

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