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Quando a história faz o artista: Barahona Possollo

Uma entrevista conduzida por Francisco Lacerda. Entrevista por António Lourenço e Nelson Farrim ao artista Barahona Possollo.

Aviso: esta série contém algumas imagens explícitas e pode não ser adequada para ambientes de trabalho ou menores de 18 anos.

FL – Um dos materiais que tu usas bastante nas tuas molduras e em algumas telas, é a folha de Ouro. Porque te fascina tanto esta cor?

BP – Os antigos egípcios acreditavam que o ouro era a carne dos deuses, a prata os seus ossos. Acho que, apesar de pintar ossos, me agrada mais a carne. Encontramos inúmeras culturas em que o ouro é um símbolo poderoso, a nossa não é excepção; é um símbolo supremo de perfeição espiritual e formal. Acima de tudo a peculiaridade do reflexo/côr é muito inspiradora!

FL – O teu trabalho tem uma parte que está claramente ligada ao erotismo. Tal como muitos artistas que representavam actos sexuais ou o nu, quer seja pelo que imaginavam, viam, faziam, ou liam através de escritores como Ovid, Voltaire e Maupassant, e passo a citar: Achille Deveria, Coubert, Peter Fendi, Rodin, Klimt, Egon Schile, George Grosz, Picasso, Dali, Miguel Angelo, Rembrandt, Parmigianino, Dubuffet, Gerard Fromanger, Magritte. Consideras que o espectador te classifica como artista homoerótico, hardcore ou de arte erótica, sabendo que a tua arte não é só sobre erotismo?

Como foram as reacções do público desde o inicio da tua pintura?

De que forma isso te afectou nas relações entre amigos e familiares?

Não é estranho que por mais séculos que passem, e por mais reconhecidos que os artistas tenham ficado pelo seu contributo para a história de arte, que exista constantemente um bias ou preconceito associado à sexualidade? Não é a arte uma forma de luta contra isso?

AL – No Budismo Tântrico existe um ramo que é O Sexo Tântrico, uma prática que consiste em transformar o êxtase sexual em “Caminho espiritual”, no qual os Budistas somente falam nas relações homem/mulher. Na sua obra alguma vez lhe inspirou esta via de espiritualidade?

BP – A identidade sexual é tão colossalmente importante para a nossa sociedade que ela se apressa a colocar logo um rótulo, procurando dominar algo assustador. Eros sempre foi um deus temido por todos os outros no panteão grego, e com toda a razão. É uma força vital que tanto cria como incendeia. É um gigante com quem se deve lidar com muita cautela. Assim surgem os rótulos. Neste caso o rótulo homoerótico não me desagrada nada, desde que não seja redutor a um âmbito exíguo, esquecendo todas as questões universais que não obedecem a rótulos e que se cruzam sempre no caminho. Às vezes penso que a atitude é parecida com aquela muito comum, por exemplo, nos EUA, quando alguém tem visivelmente algum antepassado africano: é black! A diferença é identificada como ameaça pelos wasps, que se julgam brancos, e remetida para um território inimigo. Não há nada de errado em ser black. Apenas não se esqueçam da quantidade de tonalidades que são esmagadas por esse rótulo que, para mim, no caso dos negros norte-americanos, é usado de forma repressiva. Eu defendo a teoria de que Eros, a pulsão da Libido, rege todos os nossos momentos, das formas mais óbvias e brutais ou das formas mais subtis e secundarizadas. O princípio do Prazer, aqui radicado, é uma das razões da Vida, ela mesma. O que eu receio são as atitudes dogmáticas, normalmente apoiadas em discursos de ignorância e ódio, que são normalmente as primeiras vozes a surgir.
As reacções do público são, foram e serão sempre as mais diversas, e muitas vezes inesperadas, desafiando os meus preconceitos quanto a cada pessoa em particular. Já fui admoestado por pessoas de quem não esperava isso e já recebi elogios quando menos contava. Tudo isto confirma a subjectividade e a saudável falta de linearidade do ser humano, sendo muito positiva esta tomada de consciência.
Quanto ao facto de que a Arte possa ser uma forma de luta contra o preconceito, na sexualidade e em todos os outros temas, será sempre assim, por haver a necessidade de fazer um desafio. Esse desafio pode ser, algumas vezes muito mais eficaz e visível, se tomar a forma de Arte; plástica, poética, musical, qualquer uma. Isto porque quando a palavra Arte é mencionada, parece que alguma instância superior é evocada e se permite uma “aparição”, uma “emanação” de um âmbito “superior”, estabelecendo-se um silêncio respeitoso.

Desconfio e tenho aversão a todos os sistemas dualistas de cariz maniqueísta. Raramente a complexidade da Vida se explica por pares de antagonismos. A definição fácil e rude de essências, que assumem quase o papel de adversárias, arrepia-me. Acho muito interessante o Tantrismo, se lhe for retirado o dogma macho-fêmea. Não sei se o que sobra é funcional. Será? Se não for, podemos sempre imaginar outros sistemas mais abrangentes e complexos.

Barahona Possollo, Y, 2008
Barahona Possollo, Meretseger, 1999

Barahona Possollo, Autumn Faun, 2006

Barahona Possollo, Pungent, 2013

FL – Existe ainda o preconceito em relação ao nu masculino, feminino, ou de qualquer outra representação do sexo entre animais na arte? Não será pelo facto de as pessoas serem incultas, terem pouco conhecimento da história, que reagem de forma negativa e com medo da diferença ou do que é novo?

BP – O preconceito em relação ao nu é alimentado por um medo, sabiamente incutido pela moral do poder, um medo do sexo, do erotismo e da sua força disruptiva. Aqui se distinguem, na nossa cultura, duas atitudes trágicas: por um lado, a opressão da Mulher, com consequente desvalorização das suas formas de sexualidade próprias, resulta numa “lixiviação” do nu feminino; não é tão facilmente visto como ofensivo a menos que seja muito obviamente sexual, e infrinja o papel ideal da “mulher-virgem”. A posição do privilégio masculino levou, por outro lado, à exacerbação do papel sexual do macho dominante, com inevitável focalização naquilo que a tradição diz definir o macho: o pénis. O pénis assume uma posição de valor “inflacionado”, na minha opinião, passando a tiranizar, de forma fascizante, todos os comportamentos humanos. Desde a inveja do pénis, que causa tanta violência na competição pelo tamanho, até ao pecado que passa a ser a mera figuração de um pénis, mesmo em situações de total naturalidade. O desassossego é inevitável. Enquanto às mulheres se aplicou uma agressão esmagadora que as anula e remete ou para a submissão ou para a fogueira, aos homens exigi-se uma esquizofrenia, em que o pénis quase que se individualiza e vale mais que a pessoa a quem pertence. O Homem tem que se comportar à altura da ferramenta que enverga… Toda uma gramática complexa e perversa de compromissos e fantasias, estas sim, “contra-natura”, se desenham para melhor manter o rebanho dentro dos limites de redil. Neste panorama de cruéis simplificações estereotípicas, pecado ainda maior é não encaixar em nenhuma categoria oficialmente aceite. É este o caso de todas as formas de hermafroditismo e transexualismo, que, vistas com serenidade, revelam uma infindável gama de variedades, diversidade que, até estatisticamente, abala as fronteiras da definição conservadora dos géneros.
Pintar alguém nu é, desde o início, agitar as águas turvas dos medos e paixões humanos. Tem sempre um significado; mesmo que o motivo seja muito singelo, alguém irá sempre revesti-lo dos seus fantasmas e lançar o pânico. As projecções são instantâneas. Por identificação imediata, seja especular, seja pelo contraste comprometedor, em face de um nu poucas pessoas ficam indiferentes. Toda esta problemática é, naturalmente, motivo de enorme interesse para as Artes, que perseguem as emoções como abelhas em busca de néctar.

Barahona Possollo, The Mighty Horned One, the monkeys Moth and Barahona, plus the Infernal Dog, 2009
Rock drawing from Ti-m- Lalan, Fezzan, 5000 B.C.

Barahona Possollo, Oedipus Impudicus, 1996

Fresco of Priapus, House of the Vettii, Pompeii, 1000 (Wikipedia)

Barahona Possollo, Dyptich, 1993

Hoffnung I, Gustave Klimt, 1903 (Wikipedia)

FL – Turner, Dali, Caravaggio, bem como Waterhouse, fizeram pinturas em que retrataram o Narcissus e Echo. Mas ao contrário destas obras dos artistas que referi, na tua pintura sobre esta história da mitologia grega, ele olha para um reflexo que mostra o feio e não o belo. Que querias mostrar com esta imagem refletida na água?

BP – É um tema que também pensa os problemas da comunicação e da fronteira entre o “eu” e o “outro”. Nesta pintura, a percepção da imagem reflectida de Narciso é, para nós, deformada, e ficamos a pensar que será que o próprio vê no reflexo que tanto o fascina. Pergunta-se “o que conseguimos nós comunicar aos outros, estando condenados à nossa visão, incomunicável na sua totalidade?…” Creio que o mito de Narciso ilustre bem muitos problemas psicológicos e até ontológicos, interessantes e ricos.

Barahona Possollo, Echo and Narcissus, 2010
Promenor do Reflexo na Água

FL – Que podes contar sobre estas obras?

BP – Essa pintura é uma alegoria da Verdade, sob forma de auto-retrato. No centro existe um espelho, o que tornava a fotografia do quadro difícil. Achei que se explicava melhor se estivesse eu mesmo a disparar a máquina fotográfica, que se iria perceber que ali está um espelho. Este quadro pretende ser uma pintura interactiva, em que cada observador a vai completar de maneira única quando se contempla no espelho. O observador, e toda a tridimensionalidade que entra e jogo e completa a intenção simbólica, faz parte indispensável do quadro. Esta pintura não se completa sem que alguém a contemple. Toda a iconografia da pintura está dirigida ao tema de forma muito precisa e pode ser facilmente descodificada, mas a chave do enredo, que lhe dá o propósito verdadeiro, é a presença do observador. Normalmente se pode dizer que o observador é quem justifica a Pintura; sem o público, a Arte não tem razão de ser (esquecem-se dos casos, muitos, em que a Arte cumpre um papel religioso ou mágico, onde ganha existência independente, após ser executada). Neste caso, o observador, ele mesmo, completa a obra física; pertence ao quadro. A segunda pintura é uma alegoria ao sentido da visão, numa natureza morta que recolhe vários objectos relacionados, desde amuletos a uma gravura de Santa Luzia.

Barahona Possollo, Nuda Veritas, 2002

Barahona Possollo, Allegory of Sight, 2001

Por Francisco Lacerda: Francisco Lacerda é artista, crítico cultural e director criativo do Pois. Escreve para o Pois desde 2018. Escreve também para vários meios de comunicação social e é curador de arte internacional. Estudou em Lisboa e Londres, onde desenvolveu conhecimentos no mundo de arte, gestão e luxo. Francisco Lacerda já realizou entrevistas em representação do Pois, a artistas como: Duane MichalsEdouard TaufenbachAnthony ListerManuel Braun.

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