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“Jamais aceitaria não ser… aceite.” Filipe Branco

Francisco Lacerda

Filipe Branco em conversa com Francisco Lacerda sobre o seu livro “Deixa-me ser/Let me be”.

FL – Porque decidiste escrever este livro? Pensas que é uma forma de salvar vidas, melhorar autoestima ou ajudar no coming out?

FB – Decidi contar a minha história porque para além de ser muito pessoal e direta, na forma como a escrevi, também é uma mensagem positiva de esperança. Sobre se é uma forma de salvar vidas, não sei, mas talvez seja uma forma de melhorar esse processo. No caso do meu coming out foi muito difícil porque o meu pai não aceitou… e é verdade que demorou muito tempo até eu conseguir conquistar isso, a aceitação plena. Mas lutei e consegui. Por isso acho que posso ajudar a trazer alguma luz a quem está ainda a percorrer esses caminhos tão escuros onde a não aceitação anda muitas vezes de mãos dadas com a baixa autoestima, depressão, etc.

FL – Como pensas que este livro pode ajudar quando uma pessoa está em estado de sofrimento, como descreves no teu livro? O que fazer neste caso?

FB – Bem… acho que o mais importante é falar sempre com as pessoas em quem podemos confiar, sejam amigos ou familiares, até por vezes professores e, claro, profissionais de saúde que estão preparados para lidar com todos os casos de depressão. Mas isso depende muito de cada um e do estado em que se encontra. Comigo foi uma mistura de tudo. Os amigos e a família mais próxima foram os meus pilares muitas vezes, mas todos os médicos com quem eu falei, e a quem eu procurei ajuda, foram essenciais na minha recuperação. E eu sei que as pessoas raramente falam nestas coisas. Ninguém quer sentar-se e falar de uma ida a um psicólogo. Ainda há muito preconceito com estes assuntos… e quando não há abertura, é mais difícil conseguir-se ajuda. Mas às vezes temos de ser muito diretos e dizer “Passa-se isto. Não estou bem. Preciso de apoio”. Parte desse apoio também pode vir de um livro que nos inspira, por que não?

FL – Muitas vezes a culpa da falta de autoestima é da família, do Pai ou da Mãe. Para ti, é importante a figura do Pai na aceitação de um filho como gay. Podes contar um pouco sobre isso?

FB – No meu caso a figura do pai era importante, porque no meu mundo eu não concebia nem jamais aceitaria não ser… aceite. As pessoas exteriores ao meu círculo mais próximo não me importavam. Mas na minha família eu não imaginava sequer que pudesse viver sem ser completamente aceite como era. Não fiz mal a ninguém por nascer assim e isso só despertou ainda mais a minha rebeldia e a minha vontade de lutar. Desde aí sempre fui um lutador e é com muito orgulho que o digo. Mas sei que o meu pai também lutou lá as lutas dele até ao dia em que me abraçou e aceitou por completo. Se todos os pais, figura masculina, são importantes na aceitação de um filho como gay, bem, não sei. Depende muito também da importância e da relação que já existe com os pais antes do coming out. Talvez para alguém seja algo menor. Talvez para alguém seja até mais importante ter a aceitação de um amigo de escola, por exemplo… mas no meu caso foi assim.

FL – Qual foi a reação do público ao ler o livro? Tens recebido pessoas com os mesmos problemas pelos quais *passaste?

FB – A reação do público tem sido muito, mas mesmo muito positiva. Recebi comentários de muitas pessoas que passaram pelo mesmo. Essas mensagens por vezes vêm de mães e pais, irmãos, por vezes da própria pessoa… mas tem sido incrível perceber como afinal esta minha história é tão comum a todos nós. Quando fiz a apresentação do livro no Porto tive a presença de uma mãe da AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual) e ela contou ali pessoalmente a sua própria história, que passou depois do coming out do filho. As semelhanças com as minhas vivências, e com tantas outras que me chegaram, foram arrepiantes. E nisto tudo também recebi muitas mensagens de apoio de pessoas que nunca passaram por algo semelhante, mas que despertaram para a cruel realidade da homofobia. Um dia vi-me diante de mais de uma centena de alunos e professores numa escola em Tomar. Não sei se se aperceberam, mas eu estava a tremer antes de começar a falar. Estavam ali para me ouvir contar a minha história. Muitos deles tinham pouquíssima informação sobre estas questões LGBTI e naquele dia levei-lhes tantos ensinamentos. Ter conseguido lutar contra o preconceito desta forma pública, depois de tantos anos de uma luta interior e fechada, foi a minha maior conquista.

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