“MADRUGADA” Clara Pinto-Correia

Por Clara Pinto-Correia

Eu e o Eduardo adoptámo-nos mais ao menos no dia em que nos conhecemos, e a partir daí sempre nos tratámos por ‘mano’ e ‘mana’. Há muito tempo que ele era o meu melhor confidente, a pessoa a quem eu telefonava sempre que havia trabalho para fazer ou situações de emergência para resolver – tudo actividades que podiam ir de uma mudança indeira, ao restauro de uma nova casa, ou à instalação de uma chave de segurança ainda mais forte do que a anterior. Além disso não tinha papas na língua para me dizer o que pensava sobre os meus próprios problemas, estava sempre pronto a ouvir-me desabafar, dava-me conselhos que eram mesmo só sugestões, e era um poço sem fundo para toda e qualquer segredo mais ardoroso. Depois, quando as condições se prestavam, era um grande parceiro para se sentar comigo na mesa do pátio, debaixo do limoeiro, a recordar comigo os dias e as noites de África, os cacimbos e as festas nos muceques, as frutas e os mercados, os cheiros, as vozes, toda aquela saudade imensa.

         Em certas alturas também gostávamos os dois do jogo do gato e do rato, em que eu me punha a atazaná-lo com uma conversa que era praticamente sempre a mesma, apenas porque eu não conheço o nome de imensas ferramentas.

         Então ó Mano, desculpa lá… tu não sabes o que é que as mulheres querem? Está aqui uma mulher que vive sozinha, e de repente chega o gajo das obras, e a malta no mínimo espera que o gajo venha de camuflado, com um bruto cinto cheio de sacos de buchas e de parafusos, com um busca-pólos no bolso de trás, e com uma caixa de ferramenta enorme, capaz só por si de nos fazer sonhar. E depois o gajo das obras vai inspeccionar uma canalização e quando se inclina vê-se a rachinha do rabo… E a malta passa-se porque é tudo tão sexy… e tu vens sempre para minha casa armado em beto de Sacoor Brothers? O que é que eu tenho, tenho defeito?

         E ele ria, ria, ria, dizia “tu tem cuidado ó catorzinha”, eu dizia que ele era meu mano e não era eu que ia escorregar em nenhum pecado.

         Andámos assim até que chegou o calor de um certo mês Junho com o seu prenúncio de Verão, e os jasmins do pátio enlouqueceram de cor e fragrância. A minha amiga Vera, que é pintora de décors no teatro, veio um dia ter connosco ao fim do dia, com uma caixa térmica cheia de petiscos indianos dos da terra dela. A Vera é de Moçambique. Gosta muito do Eduardo, formam os dois um par brutal para dançar, e só não traz uma geleira de Laurentinas juntamente com os seus acepipes quando não consegue mesmo arranjar tempo para descer ao Martim Moniz no domingo anterior às festividades.

         Sem problema, eu não sabia ao certo quantas garrafas de vinho branco muito seco é que tinha no frio – sei que eram imensas garrafas.

         O pessoal das obras é conhecido por beber bem, e naquele caso específico o pessoal das obras éramos nós os três.

         Íamos montar no telheiro uma poderosa operação de cinema em casa, com um plasma enorme secundado por sete coluns de som dispersas entre a folhagem das zonas abrigadas, para surtirem ainda mais efeito. De cada vez que o Eduardo acabava de montar uma coluna, a Vera decorava-a com traços finos de tinta em cores fugidias, a acompanhar o padrão do meu espantoso pé de buganvília centenário que dava flores roxas, brancas, amarelas, vermelhas, e rosa. E eu, basicamente, andava ali feita pau mandado de toda a gente. Além disso, cumpria as funções fundamentais da escrava que vem trazer as ânforas de vinho para os convidados.

O vento do rio, nessa noite, chegava até nós em fiapos de braços tão cálidos que às tantas só mesmo o Eduardo é que ainda se mantinha todo digno na sua linda Tshirt. Eu e a Vera tínhamos tirado de cima de nós tudo o que não fosse estritamente necessário para manter o decoro.

E depois, quando ao fim de algumas horas ficou tudo pronto e testado, eu fui buscar os petiscos da Vera, trouxe um alguidar enorme com tanto gelo quanto vinho branco, respirámos todos fundo ainda a suar e a rir, e sentámo-nos na mesa do terraço debaixo do limoeiro para comer e beber e ver passar as luzes dos barcos devagar, muito devagar, para cá e para lá por baixo da ponte.

E não, desculpem, realmente não sei. Não sei como foi que uma coisa levou à outra que levou à outra. Só sei que aconteceu mesmo e que até a noite se comoveu com a deflagração de um desejo tão vivo e apaixonado que parecia que tínhamos todos esperado por ela durante dez anos. Fomos para a minha cama por uma questão de conforto e lembro-me de ver tudo o que estava a acontecer ir-se deresenrolando à minha frente como as águas calmas de um grande rio, até que devagar, completamente em paz, fechei os olhos e mergulhei num sono leve, mesmo debaixo da minha pele.

         A porta de corer para o pátio estava toda aberta, para podermos continuar a entregues ao perfume dos jasmins.      

         A certa altura ouvi o cortejamento inequívoco dos pombos arrancar nos telhados das traseiras. Cantou um galo na distância. Logo a seguir foram os pássaros que entoaram em coro a sua canção da manhã. E finalmente, em passos de lã, do poço das trevas do outro lado do rio que se estendia mesmo à nossa frente, a luz do dia começou a estender os seus dedos finos através do céu.

         Levantei-me para ir fazer café para todos, e isso bastou para acordar a Vera e o Eduardo. Olharam os dois pela janela, e perceberam logo que tínhamos regressado à realidade. O Eduardo deu um grande beijo de despedida à Vera, e depois veio dar-me um grande beijo de despedida a mim. Desapareceram os dois pela porta da frente, ainda de mão dada contra a crueldade arbitrária da vida.

Eu fui buscar outro café para me sentar debaixo do limoeiro enquanto explodiam lá fora as cores da madrugada, e o que restava da noite ia desaparecendo para lá do rio.

Like this article?

Share on facebook
Share on Facebook
Share on twitter
Share on Twitter
Share on linkedin
Share on Linkdin
Share on pinterest
Share on Pinterest
Francisco Lacerda

Francisco Lacerda

Francisco Lacerda é artista, crítico cultural e director criativo do Pois. Escreve para o Pois desde 2018. Escreve também para vários meios de comunicação social e é curador de arte internacional. Estudou em Lisboa e Londres, onde desenvolveu conhecimentos no mundo de arte, gestão e luxo. Francisco Lacerda já realizou entrevistas em representação do Pois, a artistas como: Duane Michals, Edouard Taufenbach, Anthony Lister, Manuel Braun.

Check More Posts

Leave a comment

Log In

Forgot password?

Forgot password?

Enter your account data and we will send you a link to reset your password.

Your password reset link appears to be invalid or expired.

Log in

Privacy Policy

To use social login you have to agree with the storage and handling of your data by this website. GDPR Política de privacidade

Add to Collection

No Collections

Here you'll find all collections you've created before.