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“Integridade e Sinceridade são ideias importantes na minha obra.” Colin Ginks em conversa com Francisco Lacerda

Francisco Lacerda

Colin Ginks em conversa com Francisco Lacerda, respondeu a várias questões relacionadas com a sua vida artística e pessoal. Jean Cocteau ou Felix González-Torres são uma influência no seu trabalho. A geração actual é diferente da geração que cresceu com o medo do virus da SIDA. Hoje o mundo LGBT é bastante diferente.

FL – Quando percebeste que eras gay? Que idade tinhas? Queres contar um pouco sobre as tuas experiências?

CG – Saí do armário com 18 anos, em 1986. No entanto, lidei com alguma confusão sexual desde muito precoce. Na escola, na altura não existia qualquer ensino sobre “estilos de vida alternativos”. A cultura popular era a única fuga para muitos: a música pop (David Bowie, Boy George, os Soft Cell, e não só) a televisão britânica era fundamental (falo sobre isto, na minha obra “Mother Stands for Comfort But Who Will Comfort Her”), a literatura “clandestina”. Não havia a net, escrevia-se para as pessoas nos anúncios classificados para conhecer homens, a minha segunda vez foi com um londrino em 1987, com quem correspondia através do jornal de música “New Musical Express”, (uma espécie de Blitz). Sentia-se muito isolado.

FL – Consideras a tua arte Queer?

CG – Já passei por fases de insegurança enorme relativamente a essa questão. Apesar de estar muito sintonizado com a temática queer, e me ter assumido com alguma “facilidade”, ser rotulado de “artista gay”, quanto mais “escritor gay” me parecia problemático, uma espécie de handicap profissional. Houve, e ainda há, pessoas fora e dentro do meio das artes (ainda mais em Portugal) que hoje continuam a pensar assim. Sofri de alguma falta de autoestima e coragem, mas também o meio artístico em si não me encorajava. O que é verdade, é que acho que estou a chegar a um nível de maturidade em que a qualidade do meu trabalho é “inegável” (sorri), independentemente de ser “queer” ou não. Assumo-a como tal, sim, mas a única citéria deve ser, a meu ver, é se é boa. Há muita má arte Queer, também já tive culpa disto!

Pride week, New York City 2005, © Copyright Colin Ginks

FL – Na tua última exposição, “OH FUCK YEAH” o espetador é convidado a entrar numa atmosfera totalmente diferente da exterior. Queres falar um pouco sobre este projeto e de que forma se relaciona contigo? O reações esperas do espetador ao ver a tua exposição?

CG – Realmente acho que dou um passo enorme com este trabalho. Sempre esteve dentro de mim, mas se não fosse a galeria A Montanha, de Eva Oddo, a reconhecer o potencial da ideia em sim, continuava a ser um dos “ignorados” por cá, pois sou estrangeiro, autodidata, e não passei pelo percurso tradicional de curso superior das belas artes que muito suavemente insere (algumas) caras frescas da nova geração dentro do meio qb… Já brinquei com ideias de instalação em trabalhos anteriores (esta obra é uma instalação “site-specific” com texto, imagem e som) mas uma conjuntura de acontecimentos dramáticos de natureza pessoal fez explodir esta ideia em mim, e a obra não podia ser de outra forma. A exposição tem praticamente nada do figurativo, do previsível. Um critico, muito surpreendido em voz-off, disse, e passo a citar:– achei que havia um grau de sinceridade que não vi noutras exposições que abordam a vivência lgbt+. A sinceridade para mim é muito importante. De facto, acho raro sentir isso nos retratos que fazemos à nossa comunidade. Não digo que seja um trabalho fácil de entender, mas já comoveu alguns, e provocou outros.

OH FUCK YEAH, por Colin Ginks. © Copyright Galeria A Montanha

FL – Joe Orton e Félix González-Torres são duas referências nesta exposição. Porquê?

CG – Lá está, Felix González-Torres foi artista cubano-americano que morreu com Sida nos anos 90, e que abordou a dor, a tragédia, a perda, – em plenos tempos da crise do virus da Sida – muitas vezes através de objetos banais do nosso quotidiano, de forma extremamente poética, política e tocante. O seu trabalho é lindo. Também a arte conceptual pode ser queer. Joe Orton, é dramaturgo britânico dos anos 60, morto pelo seu companheiro, escritor genialmente subversivo. Era praticamente anarquista, e o ato de eu comprar aos 18 anos os seus diários (a minha cópia original faz parte da exposição, e está comentado no “caderno”, o que é outro dos elementos da instalação), também foi um passo fundamental no meu desenvolvimento identitário.

FL – Numa visita guiada à tua exposição “Dirty Little Drawings” no Late Birds Lisboa, eu senti que estava perante várias personagens que têm um significado muito importante na tua vida. Como se fosse uma forma de homenagem a alguém que mudou a tua vida. O que me podes contar sobre estas pessoas?

CG – Bom, isto toca na pergunta sobre a arte Queer… Durante muito tempo resisti à ideia de fazer publicamente retratos de pessoas com um certo contexto homoerótico. Só passado quase 30 anos é que finalmente assumi o desenho figurativo como parte importante do meu trabalho. Por acaso foi uma reação a um comentário crítico feito por um curador branco heterossexual, há pouco tempo:- deixa-te dessas bichices (ri-se). Acabei por fazer ainda mais. A minha desculpa é que servem como uma espécie de terapia pessoal para mim. Algumas destas pessoas entraram de forma mais ou menos feliz na minha vida. Estes trabalhos podem ser considerados totens de um certo estilo de vida gay. Ecce homo. Talvez seja isso que os emprestam um olhar mais perspicaz e menos superficial, não sei. Os desenhos têm tido uma receção calorosa. As pessoas reagem positivamente à sua simples integridade “a nu”. Integridade, sinceridade são ideias importantes na minha obra, o que pode parecer estranho para alguns. Uma obra até foi comprada por uma mulher heterossexual, o que foi um momento particularmente feliz para mim.

PEEK-A-BOO (MICKEY), Colin Ginks. © Copyright Late Birds Lisboa

FL – Um trabalho que eu também gostei bastante, foi “Women”. Creio que este trabalho não só demonstra que é possível ser gay e criar obras sobre outros temas LGBT, bem como, este trabalho tenta mostra realidade e cenas “tabu”. O que podes dizer sobre estes trabalhos?

CG – O lugar do individual no coletivo, as relações sociais e pessoais, a segregação são questões que me tocam profundamente, e ainda mais neste momento em parece que estamos a recuar no tempo, no que diz respeito aos direitos humanos e às minorias. Como cinéfilo, os “women’s pictures” de Hollywood são uma obsessão, os filmes de Douglas SIrk, que remete a Fassbinder etc. Há muitos gays misóginas, e há muitos também que se identificam com esta percepção cultural e social da figura feminina. Não sei se estou a responder à pergunta, mas é por aí!

LIFE GOALS 1, Colin Ginks. © Copyright National Museum of Lesbian, Gay, Bisexual & Transgender History, NY.

FL – O começo da tua carreira passou também pela fotografia. Que artistas te influenciaram na fotografia? Porque decidiste começar pela fotografia?

CG – Não é verdade. Quando mudei para Nova Iorque, entre 2003 e 2009, dividi a casa com um fotografo e acabei por conhecer muitos desse meio. Mas nunca fui fotógrafo. Foi só quando me inscrevi no Instagram por motivos profissionais, é que percebi que a fotografia podia fazer parte da minha produção.

FL – Durante o teu percurso artístico, e de vida, de que forma o apoio familiar influenciou-te na tua obra? Como consideras a evolução Queer? 

CG – Bom, as minhas origens eram bastante humildes, algures entre a classe operária e classe media baixa. Os meus pais não queriam subsidiar a minha educação, e não fui estudar numa faculdade. Não achavam importante, queriam que eu encontrasse um emprego, um ofício. Nasci depois de dois irmãos mas as oportunidades que tivemos eram basicamente as mesmas. No entanto, o meu irmão foi trabalhar a vida inteira numa fábrica, a minha irmã, entre outras coisas, foi enfermeira… Eu sempre fui espirito livre e, ainda por cima, homossexual. Não sei se uma coisa tem sempre a ver com outra, mas no meu caso, sim. Tenho imenso orgulho de ter nascido gay, acho que isso me fez lutar mais por aquilo que queria. Na altura, não me via como privilegiado, mas se calhar fui. Para além disso, a minha família nunca foi particularmente homofóbica, e bem podia ter sido. Como já disse antes, a minha obra “Mother Stands for Comfort But Who Will Comfort Her”, uma carta escrita à minha mãe, aborda esta questão, e de certeza voltarei a trabalhar sobre as ligações familiares no futuro.

FL – Que projetos tens em mente para o futuro?

CG – Continuo a fazer uma peça de teatro que co-escrevi e em que sou ator com encenadora Isabel Mões, “A Minha Europa”, em Almada no dia 16 de novembro, fazendo parte da 22ª Amostra de Teatro de Almada, e esperamos ir brevemente em digressão por Portugal fora. Além disso tenho dois projetos artísticos muito fortes e estou a começar a falar com entidades no estrangeiro sobre isso.

Podes ver um video com a entrevista ao Colin na sua exposição “Dirty Little Drawings”  -> Aqui

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