Bullying homofóbico na escola

Finalista português do Mister Senior Netherlands foi vítima durante anos

Envolvida principalmente em fotografia narrativa e documental, Susan Leurs é uma fotógrafa autodidata holandesa. Enquanto criança, a Susan foi vítima de bullying. Quando, anos mais tarde, começou a trabalhar na área da educação, tornou-se evidente para ela que o bullying continua a ser um problema muito sério. Por essa razão, decidiu fazer algo em relação a isso. Em 2016, começou a fotografar e entrevistar vítimas de bullying. A esta iniciativa, Susan deu o nome ‘PESTEN’ (a palavra holandesa para bullying). Cada vez mais pessoas ouviram falar sobre este projeto e mostraram interesse em participar. Não apenas vítimas mostraram interesse em participar, mas até mesmo alguns agressores agora arrependidos. Este projeto expõe a grave influência que o bullying tem sobre a vida das vítimas. Nas próprias palavras da Susan: “As pessoas que fotografo são intimidadas ou intimidaram alguém. O meu objetivo é fazer as pessoas pensarem sobre o que podem fazer para mudar esse comportamento de intimidação. Somos “civilizados”, mas aparentemente faltam-nos as habilidades sociais para nos aceitarmos uns aos outros tal como somos. Convido-os a pensar no que podem fazer para evitar o bullying na vossa localidade!”

Quando tomei conhecimento desta iniciativa, senti-me como se tivesse sido criada a pensar em mim, pelo que me ofereci de imediato para colaborar com a Susan Leurs. Já se passaram 30 anos, mas lembro-me como se fosse hoje: desde que entrei para a escola, aos 6 anos, fui vítima de bullying. Tanto quanto sei, nessa altura não havia sequer um nome para este tipo de atentado. Não era correto, mas não se falava sobre o assunto, ainda que fossem muitas as vítimas. Com ou sem nome, a verdade é que um grupo de miúdos abusou da superioridade numérica para, repetida e intencionalmente, me causar danos emocionais e, por vezes, físicos. Lembro-me perfeitamente de me sentir sozinho, isolado e impotente. Ainda assim, nunca contei a ninguém o que estava a acontecer. Não contei por me sentir envergonhado. Eu sabia que estava a ser atacado por causa da minha orientação sexual. Falar sobre o bullying do qual eu era vítima exigiria que eu desvendasse aquilo que eu acreditava ser o meu “defeito”.

A simples ideia de dar a conhecer esse meu “defeito” a um adulto era pior do que o próprio bullying. Além disso, receava uma possível retaliação. Eu temia que denunciar os meus agressores não fosse adiantar de nada, pois na altura nada se fazia, e que eles me tornassem a vida ainda mais difícil. Ingenuamente, acreditei que, se eu ficasse calado, o bullying acabaria por terminar mais cedo ou mais tarde. Porém, como nenhuma ação foi tomada, o problema só se intensificou e passei a ser intimidado por praticamente tudo. Por exemplo, não havia um único dia em que não pegassem comigo por causa de um um tique nervoso que fazia com que eu piscasse os olhos constantemente, tique esse que ainda hoje me acompanha, ainda que com menor intensidade. Sempre adorei a escola e até era bom aluno. Esse acabou por ser o meu refúgio. Porém,rapidamente até o simples facto de eu ser um bom aluno se tornou um motivo de perseguição. Sozinho e sem saber o que fazer, tive de ser criativo e encontrar formas de evitar o problema. Lembro-me de, durante os intervalos, ficar dentro da sala de aulas para evitar cruzar-me com os meus agressores e de, no autocarro, tentar ficar sempre junto do condutor para me sentir mais seguro. De tão frequentes que foram, não me é possível contar as vezes que pensamentos suicidas me passaram pela cabeça. Acho que a única razão pela qual nunca o fiz, foi por morrer de medo de o fazer. Infelizmente, há quem não veja outra solução.

Ainda há pouco tempo assisti ao episódio do programa “E se fosse consigo?” alusivo ao bullying e não pude deixar de me sentir incomodado ao ver que, passado tanto tempo, ainda não mudou o suficiente e que um número demasiado elevado de crianças continua a ser vitimizado diariamente. Acho importantíssimo tomarmos consciência de que o bullying, ao contrário do que aquilo que muitos pensam, não é inofensivo. No meu caso, passaram 30 anos, mas, apesar de hoje me sentir uma pessoa feliz e profissionalmente realizada, continuo a ter de lidar com os efeitos duradouros que tantos anos de bullying tiveram sobre minha autoestima e autoconfiança. Posso dizer com sinceridade que perdoei todos os meus agressores. Porém, as muitas marcas que ficaram não me deixam esquecer o que me fizeram passar. Não me é possível esquecer, nem acho que se deva esquecer. Acho sim, que se deva tomar medidas. Se esses episódios de bullying acontecessem hoje, eu alertaria alguém para o problema sem pensar duas vezes. Na minha opinião, nós tememos o que é diferente e o que não entendemos. Eu acredito que, ao educar as pessoas, podemos ajudá-las a compreender, a aceitar e a reconhecer o importante valor da diversidade na nossa sociedade. Nos casos em que a educação não for suficiente, medidas legais terão de ser tomadas. O importante é não ignorar o problema, pois, como a minha própria experiência me ensinou, nada mudará a menos que uma atitude seja tomada. É precisamente por isso que decidi verbalizar agora o que se passou e colaborar com a fotógrafa holandesa Susan Leurs.

A minha história é apenas uma das muitas histórias que vítimas de bullying têm partilhado com a Susan Leurs. Até ao momento, mais de 100 pessoas serviram de modelo para a Susan e partilharam as suas histórias com ela. Uns são vítimas. Outros são agressores que entretanto se arrependeram. Juntos, partilhamos as nossas experiências pessoais, tentamos criar visibilidade para este problema e combatê-lo. Afinal, ontem fomos nós, mas amanhã podem ser os vossos filhos.

Susan Leurs pretende levar a sua exposição a diferentes partes do mundo. Porque não Portugal? Se tiverem interesse em acolher a exposição da Susan Leurs, podem contactá-la diretamente (em inglês): https://www.susanleurs.com/contactme. Se preferirem comunicar em português, podem contactar-me antes a mim (www.facebook.com/MyOwnFado).

Texto por: Miguel Martins (4º classificado no concurso Mister Senior Netherlands 2018)

Foto de capa: Susan Leurs

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Miguel Martins

Miguel Martins

Miguel Martins é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas e trabalha como tradutor de literatura médica, além de ator e modelo fotográfico/comercial. Miguel foi um dos 12 finalistas ao título "De Meest Verleidelijke Man van Nederland" (O homem mais sedutor dos Países Baixos) e o 4° classificado na 1a edição do "Mister Senior Netherlands", tendo vencido nas categorias Favorito do Público e Melhor Talento. Miguel é um ativista dos direitos LGBTQ +.

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